
Retrospectiva do Open Insurance em 2025: o ano em que a Susep consolidou o aprimoramento contínuo do Ecossistema de Dados Abertos
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O corretor de pequeno porte na era do Open Insurance: da resistência à relevância (sem perder a essência)
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O embedded insurance (seguro “embutido”) ganhou tração pela conveniência, mas, quando cresce fora do Open Insurance, a mesma jornada digital que simplifica pode também reduzir transparência, comparabilidade e controle do cliente sobre dados e coberturas.
Em paralelo, 2026 está sendo tratado como o ano de “execução” para levar IA (inclusive generativa) do piloto para dentro do fluxo operacional, com dados governados e decisões em tempo real.
Insights em foco
O embedded insurance cresce “sem fricção”, mas fora do Open Insurance pode virar opacidade + assimetria regulatória, elevando risco de judicialização e reação regulatória. A tese central: não importa o canal, e sim a função econômica; se usa dados para ofertar/precificar/administrar seguro, deve seguir padrões equivalentes de transparência, consentimento e responsabilidade.
2026 tende a ser “make or break” para operacionalizar IA no core (e não em pilotos isolados), atacando silos de dados, legado e governança. A corrida por eficiência está puxando arquiteturas “insights-ready” e modelos de precificação unificada para acelerar time-to-market com consistência regulatória.
No resseguro, capital abundante + inovação de produto devem ampliar opções (estruturas/frequência/limites) nas renovações de jan/26.
O mercado de insurtech segue projetado para forte crescimento e aponta automação + embedded como tendência, com privacidade aparecendo como freio relevante.
Panorama da semana
O recado mais “pé no chão” da semana vem do debate sobre embedded insurance no Brasil: a conveniência do seguro embutido, ofertado dentro da compra de um celular, mobilidade, assinatura digital ou produto financeiro, está ganhando escala, mas pode estar crescendo fora do ambiente de governança e transparência que o Open Insurance tenta consolidar.
Segundo Manuel Matos / GuiaOpen / FENACOR, em notícia publicada no portal CQCS, o problema começa quando “sem fricção” vira opacidade: se parte do mercado opera num ecossistema aberto e auditável, centrado no titular dos dados, e outra parte opera num modelo fechado e proprietário, você cria dois regimes concorrendo com regras diferentes. Isso não é só uma discussão conceitual, é estrutural. A proposta é tratar o tema pelo efeito econômico: se uma operação usa dados do consumidor para ofertar, precificar, contratar e administrar seguros, ela deveria obedecer a padrões equivalentes de transparência, consentimento e responsabilidade, independentemente de o seguro estar vindo via corretor, banco ou “embutido” numa jornada digital.
O ponto tecnológico aqui é direto: o Open Insurance nasceu para devolver ao cidadão controle sobre dados, permitir comparação, compreensão de coberturas e portabilidade. Quando o embedded opera fora disso, o cliente perde visibilidade e capacidade de escolha, e o canal “vence” não por eficiência, mas por menor exposição a obrigações (o texto chama a atenção para a lógica da arbitragem regulatória).
Esse debate conversa com dois movimentos globais. De um lado, o mercado está acelerando automação e embedded: A Fortune Business Insights descreve a aceitação crescente de processos totalmente automatizados e do embedded como tendência de mercado, citando a integração do seguro à compra de bens e serviços como vetor de conveniência e acessibilidade. De outro lado, a mesma fonte destaca privacidade como barreira relevante ao crescimento, reforçando que “crescer via dados” sem governança tende a bater em limites regulatórios e de confiança.
Para seguradoras, corretores, insurtechs e distribuidores digitais, a implicação é prática: se o embedded virar volume relevante, ou ele entra na régua de governança do Open Insurance, ou o setor corre o risco de repetir ciclos conhecidos, em sequência: expansão rápida, reclamações por baixa clareza/consentimento, e depois correção regulatória “de tranco”. Para reguladores, o dilema é evitar engessar inovação sem permitir um “atalho” que fragilize direitos do titular dos dados.
O que muda na prática
Consentimento “de verdade”: menos “aceite diluído” em termos longos e mais sinais claros na jornada (o que é seguro, preço, cobertura, duração e cancelamento).
Portabilidade e comparabilidade: se o cliente não consegue revisar/portar, a conveniência vira dependência, e isso vira risco reputacional e regulatório.
Governança e trilha de auditoria: se há uso de dados para precificar/administrar, precisa haver rastreabilidade e padrões equivalentes aos canais “tradicionais”.
Opinião do Editor
O embedded insurance é um movimento estrutural do mercado segurador. A questão central não é a sua adoção, mas sob quais parâmetros regulatórios, contratuais e de governança esse crescimento ocorrerá. Modelos que priorizam escala e conveniência em detrimento de transparência, consentimento informado e adequada alocação de responsabilidades tendem, no médio prazo, a gerar assimetrias regulatórias, judicialização e perda de confiança do consumidor.
Na prática, observa-se que empresas de base tecnológica, muitas vezes alheias à lógica regulatória do setor segurador, enxergam o embedded insurance como uma solução de fácil monetização da base de clientes, incorporando a oferta de seguros à jornada digital como um “add-on” comercial. Nesse contexto, temas como enquadramento regulatório, deveres informacionais, governança de dados e conformidade à LGPD passam a ser percebidos como obstáculos ao go-to-market, quando, na realidade, constituem elementos essenciais de sustentabilidade do modelo de negócio.
Do ponto de vista operacional, a integração tecnológica que viabiliza o embedded, frequentemente estruturada por meio de APIs e parcerias com seguradoras e corretoras, é relativamente simples. Contudo, essa simplicidade técnica não elimina, nem substitui, as obrigações legais e regulatórias inerentes à intermediação e à distribuição de seguros, tampouco afasta a necessidade de garantir que o consumidor tenha ciência inequívoca de que está contratando um produto securitário, com todas as suas características, limites, exclusões e condições de cancelamento.
Sob a ótica regulatória, é indispensável que os agentes envolvidos compreendam com precisão o seu enquadramento jurídico dentro das figuras de intermediários admitidas pela SUSEP, obtenham as autorizações cabíveis, detenham conhecimento técnico adequado sobre os produtos ofertados e estruturem suas operações em conformidade com a legislação e as normas infralegais aplicáveis. A ausência desse alinhamento não apenas expõe o negócio a sanções administrativas, mas compromete a própria validade e eficácia das relações contratuais estabelecidas.
É certo que a adequação regulatória e a implementação de mecanismos robustos de governança, compliance e gestão de dados demandam investimento. No entanto, esse custo deve ser compreendido como parte do próprio modelo econômico da operação, a ser diluído pela receita gerada com a distribuição de seguros. Mais do que mitigar riscos de natureza sancionatória ou reputacional, essa conformidade tende a se traduzir em vantagem competitiva, especialmente em um ambiente de Open Insurance, no qual confiança, portabilidade e transparência passam a ser ativos estratégicos.
Em síntese, o embedded insurance que prosperará no longo prazo não será aquele que apenas se integra tecnicamente à jornada digital, mas o que se estrutura de forma juridicamente sólida, regulatoriamente aderente e alinhada aos princípios que regem a atividade seguradora.
Pergunta para você: no seu canal de distribuição (corretor, afinidade, fintech, e-commerce), o que ainda falta para consentimento claro e portabilidade serem padrão, e não exceção?
Radar
1) 2026: a IA sai do piloto ou morre no piloto: A Guidewire Software aponta 2026 como ano decisivo para “operacionalizar” IA no core: muitos pilotos não escalam por dados em silos, legado e falta de governança. Sem IA no fluxo (subscrição, precificação, sinistros), o ganho fica cosmético e a concorrência vira execução.
2) Dados “insights-ready” + precificação unificada = velocidade com controle: A tendência descrita é transformar dados em informação governada e contextualizada “no ponto da decisão” e, em paralelo, unificar pricing para reduzir erros e acelerar lançamentos com consistência regulatória. É a base técnica para competir em ciclos curtos sem explodir risco operacional.
3) Resseguro: capital sobrando pressiona por inovação de cobertura: A Artemis.bm reporta a leitura da Gallagher Re de que as renovações de jan/26 devem ser moldadas por abundância de capital e inovação de produto, expandindo alternativas para compradores. Mais flexibilidade de estrutura pode destravar crescimento, mas exige capacidade analítica (modelagem, dados e portfólio).
4) Insurtech: embedded e automação aceleram — privacidade vira o “freio de mão”: A Fortune Business Insights projeta crescimento forte do mercado de insurtech e aponta embedded/automação como tendência, ao mesmo tempo em que enfatiza preocupações de privacidade como barreira. Distribuição digital escala rápido; governança de dados precisa escalar junto.
5) Modelos mais “inteligentes” contra ameaça de SCS (Social/Civil Commotion): A Insurance Insider divulga webinar (com a Moody’s – Insurance Solutions) sobre modelos mais inteligentes para inovação em seguros diante do crescimento da ameaça de SCS. Eventos de volatilidade/perturbação social testam pricing, acúmulo e resposta de sinistros, e pedem modelagem e dados melhores.
Números & Sinais
Mercado global de insurtech: US$ 19,06 bi (2025) → US$ 23,54 bi (2026) → US$ 132,71 bi (2034), CAGR 24,1%.Fortune Business Insights
Participação da América do Norte: 47,9% do mercado global (2025). Fortune Business Insights
Projeção “curta” de insurtech citada pela Insurance Nerds: US$ 23,5 bi até 2026. insnerds.com
IA em P&C: >60% testando/implantando IA, mas <15% escalou em operações centrais (dados citados via McKinsey & Company no texto da Guidewire Software).
Gallagher Re: ROE projetado 17%–18% em 2025 (sem grandes perdas); referência de US$ 115 bi em perda segurada para reduzir ROE médio a “low double digit”.
* José Marciano da Silva Neto é especialista em Direito Securitário, consultor jurídico para Operadores e Intermediários de Seguros, com expertise em Sinistros, Compliance e Inovação.




